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O fim da comida! (e de outras coisas tantas)

Cada um é feliz à sua maneira e não gosto de me intrometer em matérias de felicidade alheia.
Mas, no outro dia, li parte de um artigo – THE END OF FOOD – no site da The New Yorker, e achei que estava na altura de abrir uma excepção.
O artigo fala sobre a invenção peculiar de dois  empreendedores/cientistas americanos. Tal como muitas outras invenções que conhecemos elas nasceram de uma necessidade.  Até aqui tudo certinho.
E qual era a necessidade destes dois senhores? Optimizar o tempo que têm da melhor forma, ganhando assim mais tempo para trabalharem.

Aqui, e como exercício meramente especulativo, digamos que eles até já tinham deixado de ter convívio social, reduzido o tempo na casa de banho e começado a dormir apenas o mínimo indispensável. Mas, mesmo assim, ainda que alheados da realidade,  continuavam a ter pouco tempo para trabalhar. Suponhamos que assim foi.

Agora passemos mesmo a factos: estes dois cientistas chegaram à conclusão que comer era uma perda de tempo, uma burocracia que o nosso corpo nos impõe e, por isso, uma tarefa deveras maçadora. Portanto, que tal eliminar esse desperdício de tempo com um suplemento alimentar?

Depois de muito investigar, reduziram picanhas, arroz de marisco, cozido à portuguesa, bifes da vazia e do lombo ou peixe no forno a um conjunto de nutrientes essenciais para o Ser Humano levar uma vida saudável.

“You need amino acids and lipids, not milk itself,” he said. “You need carbohydrates, not bread.” Fruits and vegetables provide essential vitamins and minerals, but they’re “mostly water.” He began to think that food was an inefficient way of getting what he needed to survive. “It just seemed like a system that’s too complex and too expensive and too fragile,” 

Sim nada de poético existe nesta história. Podemos facilmente imaginar um jantar entre estes dois cientistas:

– Hey, passa-me aí esses carboidratos.
– Mas tu já não comeste de manhã a tua dose diária?
-Pois é…estava tão boa aquela colher! Olha então passa-me aí essas vitaminas e minerais.
(passa-lhe o concentrado. Um gole. Concentrado tomado. Encosta-se para trás na cadeira e estica as pernas. Pega num palito e começa a palitar um vestígio microscópico de minerais)
– Ahhh, estou cheio.
-Pudera. Bebeste uma colher inteira num segundo!
-Pa…sabes como eu adoro este concentrado. Para a semana repetimos.

A verdade é que esta invenção já é um sucesso e tem sido apelidada na imprensa como “the end of food”.

Não posso deixar de ter uma visão apocalítica do mundo a ouvir a expressão “the end of food”. Imaginar uma dispensa com suplementos, organizada por cores ou por nutrientes. A eliminação das mesas de cozinha, dos frigoríficos ou dos fogões. O dizer adeus aos restaurantes e o deixar de fazer sentido ter uma cozinha em casa. Nunca mais ir às compras ao supermercado. As mulheres deixarem de falar em dietas milagrosas e a passar a ser um fantasma no digital. Um mundo bastante diferente, digamos.
Mas acima de tudo esta notícia dá-me comichão. Daquelas bem fortes que nos deixa o braço vermelho de tanto o coçar.

Quem é que, de bom senso, é mais feliz se tiver mais tempo para trabalhar? Quem é que quer deixar de comer para trabalhar? Quem é que quer, mas quer mesmo, deixar de estar um bom bocado com as amigos ou com o namorado(a) por causa de trabalho?

Com esta invenção mata-se, de uma cajadada só, dois coelhos (perdão, coelhos não! Alguma proteína que desconheço o nome). Mata-se o prazer de comer um gelado gigante, de 3 ou 4 andares, e o prazer de ter uma desculpa para estar numa esplanada com os amigos até às tantas. A expressão “tomar um cafezinho” deixará de fazer sentido e as belas imperiais serão substituídas por um qualquer comprimido/concentrado de uma cor a definir. No fundo, perderemos uma das coisas que nos torna um pouquinho (só um pouquinho) mais humanos.

Ah, mas é verdade, vamos ter mais tempo para trabalhar…que bom!

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